História do Café no Brasil Imperial
 

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Real romance de M. Haritoff - I

Affonso Romano de Sant'anna

Anna Clara Breves de Moraes Costa - Madame Haritoff (Richter, Museu Nacional de Belas Artes)


 

Esta é uma estória romântica. E patética. E se eu tivesse alguma competência, deveria escrevê-la no rítmo de um folhetim, que era a nova forma narrativa   mobilizadora do imaginário dos leitores à época em que ela ocorreu.  Sim, esta história é romântica, primeiro porque é típica do século XIX , romântico, em grande parte; século de melancolias e arrebatamentos com   Chopin e Victor Hugo, com Alexandre Dumas e Verdi, quando   amores e guerras, heroismos e canalhices se mesclavam em turbilhões literários. Mas se digo que é também uma estória patética, é porque dos momentos de esfuziante glória de seus personagens principais pervagando nas cortes russa , francesa  e brasileira chega-se à decadência econômica abraçada à indigência social em que terminou um  de seus principais personagens na região de Barra do Piraí.

         Por isto, Élio Gaspari cutucando-me para que trouxesse à luz documentos que vieram às minhas mãos, ele que conhece a história do Brasil como poucos, chegou provocativamente a adiantar que esse drama glorioso e patético, na sua vertente macunaímica, bem poderia ser também o enredo de uma escola de samba, tais são os seus ingredientes reveladores do que ocorre no segundo andar e nos porões da alma brasileira. E se alguma escola carnavalesca se animar, isto  vai  dar samba.

 Mas pode, igualmente, ser o tema para uma bela novela das “seis”, da “sete” das “oito” ou para uma mini-série ou  filme interessado em recriar, espetacular e romanticamente, fatos que aconteceram ontem. Ontem, porque começam na segunda metade do século XIX e cobrem parte  do século XX. E alguns desses fatos  estão na memória de   descendentes da nobreza cafeeira do século passado que carregam orgulhosos sobrenomes.

Na verdade,  deveria pedir às   filhas -Fabiana, que está fazendo um curso de roteiro e sinopses com Maria Carmem Barbosa,  e Alessandra que já fez semelhante curso com Luis Carlos Maciel para me ajudarem. Mas essa crônica tem que ser entregue e já passei do tempo de aprender tais misteres.

Portanto, esta é a história de amor entre Maurício Haritoff, às vezes tratado como “conde”, como “barão” e “comendador”, e que vindo  da nobreza russa ao tempo do Czar Alexandre II e  dos salões parisienses ao tempo  de Napoleão  III  encontra Ana Clara Breves de Moraes Costa, de apelido Nicota, linda mocinha de 17 anos, que tocava piano, cantava e falava fluentemente francês, de riquíssima família de fazendeiros pertencente ao clã dos Breves, no qual distinguia-se o Comendador   José Joaquim  de Souza Breves-“ o rei da café”, dono de 37  fazendas que começavam nas águas da restinga da  Marambaia e iam pelo Estado do Rio a dentro, com seus seis mil escravos e até mesmo dois navios. Num segundo estágio,  depois do fausto, viagens, guerras, já viúvo e arruinado, procurando emprego público para sobreviver, o nobre russo totalmente entregue aos trópicos casa-se com uma mulata pobre, filha de uma escrava, com o belo  nome de Regina Angelorum, com quem teve um  filho que morreu cedo e mais dois- Alexis e Boris, que tiveram também uma vida igualmente difícil. Segundo a imprensa um deles, Boris, morreu recentemente e dizem que ele alegava ser mentira toda a história mítica que contam  sobre seus familiares. Seu pai, Maurício,  deixou a respeito duas longas e belas cartas onde,com a nobreza ainda de um  cavalheiro, conta sua relação com Regina, assumindo-a como esposa  a despeito da hostilidade preonceituosa  de seus parentes aristrocratas.

 Mas  antes de se chegar ao lado trágico e patético, a narrativa teria que recuperar a história daquele   amor “fulminante”, entre o vivido Mauricio Haritoff e a jovenzinha de 17 anos, cujas cartas de amor ao seu príncipe tenho em minha frente. Haveria que narrar como se viram pela primeira vez numa recepção na elegante Fazenda do Pinheiro,  e se apaixonando, se casaram e  foram viver na Fazenda Bella Alliança, propriedade que recebia inúmeras personalidades da época, tanto  Joaquim Nabuco (numa missa no dia mesmo da libertação dos escravos), quanto o Grão Duque Alexandre da Rússia,  sobrinho do Czar Alexandre II, quando veio visitar a corte de Pedro II.

 A sinopse talvez pudesse ir sugerindo que através dessas cenas se recriará toda a história do fim da escravidão negra, sobretudo entre 1871( Lei do ventre livre), mostrando o cotidiano da escravaria e dos senhores, as cenas de festas na casa grande e na senzala e até as cenas em que a mocinha- a Nicota- participa, insolitamente, de trabalhos de colheita com as escravas.

 A parte mais difícil  e cara será   recriar a atmosfera da corte russa, onde a figura de Rasputin   siderava o imaginário no final do século XIX, e quando começaram a ocorrer os primeiros atentados contra o Czar. Estratagemas  deverão, igualmente, ser  encontrados para retratar a Guerra Turco-Russa de 1877, pois o nosso herói, Maurício Haritoff, sentindo  arder-lhe no peito o dever patriótico, largou tudo- a bela e jovem Nicota, a vida mundana de  Paris com jogos e festas indo participar desse conflito como ajudante de campo do General Alexis.

Ainda nesse espaço de guerras românticas, necessário será apresentar de alguma forma  o cerco de Paris pelas tropas prussianas, em 1870, pois, segundo algumas afirmativas,  lá estavam Maurício e Nicota sujeitos a todos os perigos.

Ao final,  depois da vindas e idas à Europa, depois da fulgurante mundanidade, a parte última desse folhetim se transforma num drama dostoievskiano, onde na sombra se arrasta a solidão do ex-nobre  Mauricio Haritoff dedicado a criar  seus dois filhos, até que morre em 1919.

Como contar toda essa epopéia, todo esse lirismo, toda essa tragédia, toda essa comédia humana? Como narrar o contexto sócio-histórico das estepes russas ao vale do Paraíba? Nos grandes poemas de antigamente os poetas invocavam as Musas para que os inspirassem. Aqui esse apelo é desnecessário, porque me limitarei a pontuar alguns aspectos que, um  dia, alguém  com mais competência e fôlego  retomará  para alimentar  com um pouco mais de verdade o nosso insaciável imaginário.

CONTINUA...

 
 

 

 

 

     

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