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Quantas
cartas teria Anna Clara escrito ao seu amado
marido Maurício Haritoff, se numa
delas diz que lhe escrevia “todos os dias”,
noutra que “fiquei dois
dias sem te escrever”, noutra “te escrevo de
seis em seis dias” e noutra reafirma que
escrevia-lhe “todos os dias”?
Em geral, sem data, em torno
de 1870 e 1890, transitam entre
Paris, Rússia, Berlim, Portugal e Brasil.
Como ela mesmo revela, “ digo-te tudo o que
sinto e o que me passa pela cabeça, sem
fraseado nem estilo”. E, no entanto, são
em escritas num correto francês.
E as cartas de Maurício para ela?
Perderam-se nas frestas da história? Havia
alguma naquele
incêndio, há três meses, quando( conforme
nos informa, lá de
Piraí, Anna Maria Sloboda Cruz), o último
filho de Haritoff,
Ivan aos 92 anos, “na hora de dormir
deixou uma vela acesa
sobre a televisão, que explodiu pegando fogo
nos móveis destruindo seus queridos livros
,documentos, retratos, quase tudo o que
possuía” morrendo poucos
dias depois?
Tomo as cartas restantes, com reiteradas
declarações de amor, escritas por Anna Clara
ao marido: “Creia-me que
ninguém nunca te
amará como eu ”; “Meu coração sofre até à
morte por estar separada de ti ”;“Amor:“Bem
sabes como te amo, não podes, no entanto,
compreender o que sofro longe de ti;
pergunto-me como fazem estas pobres mulheres
que passam a maior parte
do tempo separadas de seus maridos; eu
confesso que não suportaria esse sacrifício
por muito tempo”. E era tanta a solidão que
ela , deprimida, confessaria: “Não posso te
dizer o quanto estou
desgotosa da vida, mais eu vejo, mais eu
vivo, mais a desprezo! Assim se não fosse
por ti, meu amor, que amo de todo o coração,
teria implorado a Deus que me levasse, pois
a não ser de ti, de ninguém mais sentiria
saudade nesta a terra”.
Mas o perfil de Ana Clara se desdobra em
outras faces:- ““vou estudar piano e canto
para ver se alegro a
minha solidão, pois prefiro muito
mais estar só do que receber visitas
com as quais me aborreço(…) Escreve-me sobre
moda e aconselha-me a ler, cantar ou tocar
algumas da ultimas novidades”.
Surpreendentemente, surge a administradora
que na ausência do marido se
manifesta: “Colhemos muito pouca cana neste
ano. O açúcar está muito caro, Rocha me
escreveu a este respeito e o açúcar branco
custa 480 o quilo no mercado”; “Manuel manda
te comunicar que já tem 3 mil arrobas de
café despolpado, e se o tempo continuar b om,
será logo enviado
ao Rio. Por mim, penso que seria melhor se
nós pudéssesmos despolpar toda a nossa safra
este ano, dizem que o café atingiu nos
ultimos dias 9 mil reis”.
E reafirmando seu pulso
de dona da fazenda informa: “Nos momentos
mais necessários pela manhã e à tarde, vou e
mando todo mundo bara baixo, para o trabaho,
e só fica em casa
Emília, porque já está com uma barriga
enorme”. Mas o mais insólito é essa
declaração acima dos preconceitos e que
mostra a singularidade dessa bela
sinhazinha: ““Imagine só que eu me divirto
em trabalhar com as negras no cafezal; estou
mais habituada com a fazenda e a deixo com
tristeza”.
E além dessas, encontramos informações sobre
o escravagismo na época: “Imagina que
Sinhazinha me propôs companhá-la à Grama
onde quer ficar 4 ou 5 dias, e eu estou
furiosa porque bem sabe o que isso me custa;
não podendo ir a cavalo tenho que me fazer
carregar pelos negros que colhem café, e que
neste momento estão ocupados”. Ou,
então, comentários como esse: “Tereza
surpreendeu o
pequeno mulato
carpinteiro Ernesto com
Gabriela, ele a
violou, que horror! Eu disse
ao Manuel para
puni-lo com rigor, a
pequena está
recolhida ao hospital”.
Misturado com isto transparecem questões de
briga de família, entre os “Breves graúdos”
e os “Breves miúdos”: -“O senhor Breves vai
gritar com seus filhos que não fazem nada.
Eles trocaram de residência sem sua
autorização e continuam a não fazer nada”.Questôes
nas quais os
escravos acabavam se envolvendo: “Parece que
Raymundo, o negro, foi posto a ferros depois
de ser duramente castigado porque contaram a
Né que ele havia vindo nos ver, o que é uma
mentira! Ricardo está sendo vigiado por dois
escravos de confiança para que não possa vir
ver-nos”.
Quando o marido
estava na guerra turco-russa de 1877,
aquartelado em Tcharcosolle,
ela de Berlim, montando
casa, lhe escrevia: “Tenho um criado
em vista, ele fala alemão, inglês e
italiano. Foi empregado em casa de um russo
de quem não me lembro o nome, parece
Comandante Strogonoff”.
E arrematava: “Em Berlim estarei mais perto
de ti, as cartas levam menos tempos a
chegar, e a distância entre nós é de somente
38 horas de viagem”. Revela ter contato com
um superior militar para que não mandem
Maurício para zonas perigosas do front
“evitando assim que te exponhas demasiado”.E
comunicava que o amigo Federic “mandou-te
mil cigarros; são de
marca para que tu fumes, e ele pagou todos
os fretes para ti”. E com esses cuidados
amorosos chega a fazer essa curiosa
recomendação a quem está no campo de
batalha. “ Sua saúde está boa, não sentes
mais dores do lado, e teus males de
estômago? Estão melhorando? Não comas coisas
indigestas”.
Outras cartas
referem-se aos objetos preciosos que
vindo da Europa ornariam a mansão de
Laranjeiras,que seria cenário de recepções
históricas, como a oferecida
a Tom King Sing, o chinês que veio
discutir com as autoridades brasileiras e
Haritoff a importação de mão de obra chinesa
para substituir o escravo negro. Chinêsque,
paradoxalmente, tinha um escravo negro que o
acompanhava,e era americano- Mr.Bulter.
Ana Clara- a
nossa Nicota, refere-se muito à precariedade
de sua saúde: “Acabei de passar 8 dias de
cama com febre. Werneck veio uma porção de
vezes e me fez tomar muito sulfato de
quinino”. A decadência física e econômica
viriam juntas. Feneceria aos 44 anos a mais
bela flor dos Breves, linhagem que começa na
França com François Savary Conde de Brèves,
embaixador de Henrique IV
(1629), continua nos Açores e de lá
chega a Sant’Ana do Piraí. Com
a história de Nicota e Haritoff
cruzam-se as histórias de muitos sobrenomes
de nossa elite.Rastrear isto, mais do que
retraçar árvores genealógicas
é reencenar, talvez com algum
acréscimo a história do país.
CONTINUA...
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