História do Café no Brasil Imperial
 

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Real romance de M. Haritoff - VI

Affonso Romano de Sant'anna

Capitão-mór José de Souza Breves (Julien Chevrell, Museu Imperial de Petrópolis)


 

O Capitão-Mór José de Souza Breves acabou de morrer. Tinha 97 anos. Mas a família não quer que sua imagem desapareça da face da Terra. Mandam buscar na corte um pintor francês para retratá-lo. Mas ele está morto. Deitado. Não tem importância. Vamos colocá-lo sentado. Vamos vesti-lo com sua farda. E chamar o pintor. No entanto, o pintor tarda dois dias a chegar. Não tem importância, o morto fardado e sentado pode esperar uma eternidade. O pintor chegou. O  retrato foi  feito. Mas um problema surgiu depois. Não dava para estirar o morto no caixão. Resultado: o Capitão-Mór José de Souza Breves foi enterrado sentado.

Não  é história de Garcia Marquez ou de Jorge Amado. O retrato do defunto, pode-se assim literalmente dizer, pintado no dia 10 de janeiro de 1845, está na casa do embaixador João Hermes de Moura lá em Laranjeiras, não  muito longe da mansão onde Maurício Haritoff e Ana Clara davam soberbas recepções ao tempo de Pedro II.

  Este nosso folhetim está chegando ao fim. Provisório. E coisas espantosas ainda podem ser narradas, reveladas. Essa história do clã dos Breves e sua escravaria em 70 fazendas é inesgotável. Pode entrelaçar-se até com fatos  macabros modernos, como o insolúvel assassinato de Dana de Teffé, que durante décadas ocupou  o noticiário policial. Como? O que tem uma coisa a ver com outra? Nada e tudo. Acontece que, um dia, de repente, os túmulos onde jaziam restos dos parentes dos Breves em Barra do Piraí amanheceram profanados. Diz-se que havia suspeita que o cadáver de Dana de Teffé havia sido posto num deles. O fato é que depois desse   infausto acontecimento, a família transportou os restos dos familiares para outro lugar.

 De embaixadores estrangeiros na corte do Segundo  Reinado, de visitantes eventuais como o Grão Duque- primo do Czar,  até o sábio Agassis, suiço que   esteve nas fazendas do Breves, em 1865, ou Assis Chateaubriand e Agrippino Grieco, pessoas as mais díspares escreveram sobre os Breves, Haritoff e Bela Aliança. Agassis, por exemplo descreve sua viagem por aquela região: “Em quatro horas, a Estrada de Ferro Dom Pedro II nos leva à Barra do Piraí; depois continuamos mansamente nossa caminhada, montados em burros, ao longo das margens do Paraíba(…) Ao por do sol chegamos à fazenda situada numa esplanada que domina o rio e donde se abrange encantadora perspectiva de águas e florestas. Acolhem-nos com uma hospitalidade que dificilmente, penso, encontrará equivalente fora do Brasil. Não se pergunta quem sois, donde vindes, e abrem-vos todas as portas. Desta vez éramos esperados; mas não é menos verdadeiro que, nessas fazendas onde há lugar à mesa para cem pessoas, se necessário for, todo viajante que passe é livre de parar para ter pouso e refeição”.

E continuando a narrativa, descreve cena de apresentação da orquetra de escravos, coisa que ocorria em várias fazendas da época:  “À noite, quando depois do jantar tomávamos o café na varanda, uma orquestra composta de escravos (Banda do Pinheiro, onde tocavam os escravos Bruno, Bevenuto, Brás, entre outros) pertencentes à fazenda nos proporcionou boa música. A paixão dos negros por essa arte é fato notado em toda parte”

Assis Chateaubriand, em texto de 1927, exercitando seu veio de repórter, depois de visitar o “reina da Marambaia” que pertencia ao “ rei   ao café”, entre outras coisas narra conversa que teve com ex-escravos do senhor dos Breves: “Perguntei-lhe que tal era o seu antigo senhor, e ele me retrucou:-"Era um véio bão. Quando via nego assentado, despois do serviço, apreguntava se nego tava triste. E mandava reunir a senzala para dançar o caterete e o batuque, fazendo tocar o bumba da barriga".

Outro informante lhe diz: "Gente vinha da baía dãngola premero pra aqui. Engordava, e despois ia pra roça, trabaía no cafezá".

Sobre a fazenda Bella Aliança, onde viveram Haritoff e Ana Clara  há coisas sabidas e por saber.  Há até suposições. Por que teria  o mesmo nome de uma histórica fazenda, em Waterloo, onde Napoleão foi derrotado? Por outro lado, sobre  a fazenda brasileira sabe-se que tinha muitos escravos e que Haritoff e Ana Clara foram dos primeiros a  libertá-los. Sabe-se também, que Haritoff e outros estavam interessados na mão de obra chinesa em substitução ao trabalho dos negros. O que não se sabia até agora é que muitos franceses foram trabalhar naquele região no final do século XIX. Segundo pesquisas realizadas por Pascale Lagauterie, estudando a imigração  francesa do Périgord para o Brasil e registrada em livro publicado em 1995, cerca de 400 franceses foram para Barra do Piraí em 1889. Muitos morreram de febre amarela e tifo e alguns foram enterrados  no cemitério dos escravos  na  Bela Aliança .

 Por outro lado,  há registros de que foi na região do Piraí, onde pela primeira se tentou o cultivo de chá  no país, mas há uma carta de A. Gomes de Carmo, datada de 28 de outubro de 1907 e dirigida ao Comendador Maurício Haritoff com uma informação insólita: “…quero  vos comunicar que  as amostras de plantas de seringueira que mandei para New York deram um resultado muito  encorajador. Pedem-me agora explicitamente mudas e folhas destas plantas lactíferas. Cinco quilos de cada espécie, cada uma bem etiquetada. Creio que o senhor tem três vegetais nas condições requeridas: a maniçoba, a cangarana e o pau de leite. Poderia enviar-me destas três espécies e de outras também ricas de látex?”. E  o remetente se propunha alugar a plantação  de maniçopa de Haritoff para produção industrial.

         Se Joaquim Nabuco esteve na Bela Aliança assistindo à libertação dos escravos, foi ali também que morreu Theophilo Ottoni- presidente da Província de Minas Gerais e casado com Rita, irmã de Ana Clara- a nossa inefável Nicota que viveu com Maurício um romance típico do século XIX.

         Este folhetim se interrompe aqui. Olho essas documentos, cartas de amor, a relação dos últimos objetos deixados por Haritoff já arruinado. A história continua `a nossa revelia. Ergo uma taça de vinho à memória de Haritoff,  Ana Clara e Regina Angelorum.  Passo um paté no pão usando uma espátula de prata,  que me foi dada por Yedda. Ali está inscrita a sigla M/H de Mauricio Haritoff.

         Saúde!. A vida é breve. Ou melhor, Breves.

 
 

 

 

 

     

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