|
Durante
muitos anos quis conhecer a ilha de Marambaia, que fora em tempos
remotos uma importante fazenda de café e entreposto do comércio de
escravos. Hoje a ilha encontra-se sob o controle da Marinha e lá
funciona o CADIM - Centro de Adestramento de Intendentes da
Marinha. Entrei em contato com o comando daquela corporação e
falando com o comandante Lobo Lopes, capitão-de-mar-e-guerra
recentemente transferido para aquela unidade consegui a permissão
para o embarque.
Disse-lhe o
objetivo da visita e que era descendente do antigo proprietário
daquela propriedade insular.
Nas férias de
julho fomos até Itacuruçá para o embarque na lancha da Marinha.
Durante o trajeto recebemos um rádio do Comandante do CADIM para
confirmar nossa presença na embarcação. Prancheta na mão um militar
confirmou nossa presença: o casal Marly e Aloysio Clemente Breves. A
ansiedade era grande pois ia visitar um local que em tempos passados
fora de propriedade de Joaquim Breves. A paisagem é belíssima e a
brisa fresca da manhã na proa da nave me fazia lembrar da minha
história familiar. Em 1927 outro passageiro também houvera feito o
mesmo trajeto, curioso com o destino que havia sido dado aquela
propriedade. Foi Assis Chateaubriand, o grande jornalista, que
movido pelas comemorações do 2o. centenário da introdução
do café no Brasil, desembarcara na ilha de Marambaia em busca das
recordações daquele que foi um de seus maiores produtores.
Passamos por
Jaguanum e o barco repleto de jovens que pela primeira vez estavam
indo para aquele lugar. Curiosos perguntavam aos mais veteranos como
eram as instalações, o que se tinha para fazer, e como seria a longa
estadia de estudos e aperfeiçoamento.
Alguns moradores
da ilha viajavam conosco. Gente humilde que ia rever parentes ou
simplesmente tinham ido às compras no continente.
Depois de quarenta
minutos começamos a avistar a ilha, e pouco a pouco podemos ver sua
topografia. A emoção bate forte nesse momento.
No desembarque
eramos aguardados por um oficial, o Comandante Dejair - pessoa
simpática e atenciosa que nos deu as boas vindas e nos levou numa
Toyota para a base da corporação.
Como era hora do
café-da-manhã, fomos para o rancho. Os militares aproveitaram a
antiga senzala dos Breves e preservando sua estrutura montaram um
local para refeições e um mini-hotel de trânsito para os visitantes.
Após a refeição
fomos para um encontro com o Comandante da Corporação - Jorge Lobo,
e no caminho pude observar a beleza da ilha. As instalações
militares são simples mas extremamente limpas e bem dispostas. O
carro seguia pela praia acompanhando a linha de coqueiros tendo ao
fundo os morros com a mata atlântica que cobre toda a ilha. O ponto
mais alta da ilha atinge os 500 metros e a vegetação é densa. No
tempo do império o Comendador Breves plantava café, milho e cana por
toda ilha, inclusive nas encostas do pico.
Passamos pelo
casario de oficiais e chegamos ao Comando. O comandante nos recebeu
em sua sala juntamente com o imediato Dejair e conversamos sobre o
passado daquela localidade. Ele é profundo conhecedor daquelas
paragens e da história local. Ficou muito fácil a conversa. Deixei
com ele um material impresso com fotos e textos sobre a família, e
recebi um pequeno livreto sobre o Centro de Adestramento e sua
história de fazenda de café antiga.
O oficial fizera
uma rápida pesquisa nos cartórios de Mangaratiba e achou documentos
interessantes da época que o café ditava os rumos econômicos do
Império.
Após o almoço
servido na senzala transformada, fomos dar um passeio pela vila. O
tempo ruim prometendo chuva dificultava nossas intenções, que era
visitar a praia de Armação. Só haviam duas opções: caminhar por uma
trilha no meio da mata por cerca de uma hora ou pegar carona numa
embarcação até lá.
Caminhando pela
praia chega-se a uma pequena igreja e um colégio, que aquela hora
estava cheio de alunos. Também existe um pequeno posto de saúde para
o atendimento dos moradores. A vista é maravilhosa e a paz enche o
lugar.
Saindo deste
pequeno povoado seguimos uma trilha de terra que adentra os
manguezais no entorno da ilha. Perguntamos a um morador quem era a
pessoa mais antiga da região. Disse o homem que seguíssemos em
frente que daríamos em uma casa. Chegamos até lá.
Atende-nos um
senhor de cabelos brancos, Sr. Joel que nos diz estar com 75 anos.
Falei sobre minha família, os antigos proprietários da ilha e
restinga. Ele pediu que aguardássemos e retornou com um retrato
pequeno, uma cópia de uma fotografia de Joaquim Breves. Era uma
reprodução tirada provavelmente de algum livro. Falou que seu pai o
conhecera.
Duvidei da
afirmação e perguntei-lhe se conhecia alguém com mais idade, morador
da ilha que pudesse nos fornecer maiores informações.
-
Dona
Sebastiana! disse ele. O sr. ande mais um pouco por essa trilha que
vai ver a casa dela. Deve ter uns cem anos, riu o velhote.
Agradecemos e
saímos em direção ao local apontado. Mais vinte minutos de caminhada
chegamos à casa da velha senhora. Um de seus filhos vem nos atender.
Logo após chega a
velha senhora. Disse Ter 84 anos. Parecia forte e com saúde. De pés
no chão com o olhar baixo, ouviu minhas explicações. Quando lhe
disse que a ilha pertencera à minha família em tempos muito
distantes, perguntou-me qual era o nome do proprietário.
- Joaquim Breves, falei.
O olhar e a
compostura da senhora se alterou. Parecia assustada e nervosa.
Sorrindo tentei acalmá-la dizendo que não viera reaver a
propriedade, e que Joaquim Breves já desaparecera hà muito.
Perguntei-lhe
então como era o nome de seu pai.
-
Adriano, respondeu.
-
E o
de seu avô?
-
Gustavo Vítor.
Quem ficou
surpreso fui eu. Repetia-se a história de Assis Chateaubriand. Ele
em 1927 encontrou-se com 2 ex-escravos do Comendador Breves
residentes na ilha. Eu encontrava-me com a filha e neta de um deles.
Dona Sebastiana
tinha boa memória e contou-nos que seu pai conhecera o
latifundiário. Repetiu a afirmativa de seu avô, que Joaquim era bom.
Agradeci muito a
informação e tirei com sua autorização algumas fotos. Saímos dali
reconfortados, pois a história estava viva.
Os descendentes de
escravos dos Breves reclamam a posse da terra. São ilhéus, nasceram
ali e vivem da pesca. A Marinha faz vista grossa e não tem como
expulsá-los e assim vão vivendo.
Na despedida disse
a velha senhora: "Vamos vivendo como Deus quer".
Deixamos a
Marambaia debaixo de muita chuva, um temporal fortíssimo. O barulho
da embarcação e o balanço do mar, serviam de música para nossa
reflexão, principalmente para o resgate daquele pedaço da história.
Aloysio Clemente M. I. de J. Breves Beiler (2001 - Rio de Janeiro) |