Durante
sua viagem, através da província do Rio
de Janeiro em 1860, Augusto Emilio
Zaluar, teve oportunidade de visitar a
grande Fazenda dos Três Poços, no
município de Barra Mansa, na Freguezia
de São Sebastião.
Lucas Antônio Monteiro de Barros, era
moço fidalgo da Casa Imperial,
Comendador de Cristo e filho do senador
do Império por São Paulo - Visconde de
Congonhas do Campo, Lucas Monteiro de
Barros.
Zaluar em visita à sua fazenda, almoçou
com ele, o que lhe valeu algumas horas
muito agradáveis em companhia de tão
distinto cavalheiro. Sua esposa Dona
Cecília Breves de Moraes, era filha dos
Barões de Piraí, sendo portanto,
concunhado do Barão de Vargem Alegre e
dos irmãos Comendadores Souza Breves -
José e Joaquim. Estas ligações de
família propiciavam a enormes confusões,
mas, no entanto, eram muito comuns nos
idos de 1800. Os Souza Breves, Gonçalves
de Moraes, Oliveira Roxo, Monteiro de
Barros, Oliveira Belo e Lima e Silva -
formavam uma grande casta, e uma só
família de potentados do café.
Mas voltando a falar de Três Poços. Esta
fazenda de enorme importância foi legada
aos monges trapistas da Abadia de Sept
Fonds, então localizados em Tremembé,
com grandes culturas de arroz.
Zaluar comenta assim sua viagem:
"A Fazenda dos Três Poços, que assim se
denomina esta grande propriedade rural,
é também uma das mais importantes deste
município e está aprazívelmente
assentada à margem esquerda do rio
Paraíba.
A casa de construção regular é elegante
e espaçosa e merece especial menção
entre as habitações de gosto dos nossos
fazendeiros. A grande extensão do
terreno e o muito café que produz dão a
esta fazenda um valor sólido e real.
Pela estatística do tempo, a média de
produção de café de Três Poços, era de
22.000 arrôbas de café anuais, produção
muito elevada, a maior de todo o
município de Barra Mansa.
Os viajantes da Central do Brasil podem
ter a exata noção da importância desta
fazenda, quando entre Pinheiro e Volta
Redonda, lhes aparecem as vultosas
benfeitorias situadas em lindo cenário e
numa larga várzea ribeirinha do Paraíba.
A casa grande, enorme e cheia de salas e
quartos, e onde se nota a bela capela,
apresenta singularidade curiosa: está
ligada por uma espécie de passadiço, ou
ponte, a uma segunda casa também muito
grande.
Visitamos Três Poços em companhia do
Procurador Geral dos Trapistas, o
Reverendo Padre José R. Bouillon, e
pudemos então conhecer uma das mais
importantes fazendas contemporâneas do
esplendor fluminense. A casa de
enfermaria dos escravos, sobrado de
dimensões absolutamente fora do comum,
compreendia enormes cômodos. O antigo
engenho de café igualmente testemunhava
a importância dessa propriedade de cujo
solo fertilíssimo provieram colheitas
convertidas em milhares e milhares de
contos de réis.
Enormes almanjarras obsoletas, de vários
tipos; ancestrais venerandas das
máquinas beneficiadoras modernas de
café, atravancavam-no; desde muito
imobilizadas e recobertas de espessa
camada de pó. Por sobre uma delas,
espreguiçada num montante de colossal
esquadria de madeira de lei, vadiava
grossa caninana.
Prudentemente bateu em retirada aos nos
ver entrar, naturalmente indgnada com a
perturbação da sesta volúpica e
modorrenta de um meio-dia abafadiço,
naquele ambiente tãop silencioso e
outrora tão movimentado... Era como que
o símbolo vivo da decadência e da
miséria da lavoura cafeeira no vale
sustentáculo do Brasil Imperial.
Ainda vimos, nas salas e quartos da
fazenda da varanda doadora, perfeita
encarnação do tipo feminino superior,
criado pela velha formação brasileira,
numerosos espécimes dos mais valiosos de
nossa arte de antanho.
Zaluar, refere-se à figura de Dona
Cecília Breves de Moraes, mulher de rara
fibra, traço comum no lado feminino da
estirpe dos Breves; a cuidadosa
manutenção da grande Fazenda dos Três
Poços, quando da morte de seu marido, o
Comendador Lucas Antônio Monteiro de
Barros, ainda muito moço.
Dona Cecília Breves de Moraes, faleceu
quase centenária, deixando em testamento
toda sua fortuna e a Fazenda aos monges
trapistas da Abadia de Sept FOnds.
A excursão à Três Poços valeu às
coleções do Museu Paulista, por
intermédio da generosa doação do
Reverendo Padre Bouillon, três espécimes
da nossa há muito extinta arte plumária,
hoje notavelmente raros, senão
raríssimos: quatro ingênuos quadros, de
fins da era setecentista, ou de
princípios do século XIX, simbolizando a
Europa, Ásia, África e América. Três
destes quadros chegaram ilesos ao Museu
Paulista do Ipiranga, mas o quarto
quadro representando a Europa,
transformou-se em estilhaços num
desastre de um trem cargueiro da Central
do Brasil.
Fonte:
Peregrinações pela província de São
Paulo (1860-1861), Augusto Emilio Zaluar. |