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Passa-Três,
Janeiro de 1876.
Em
"Guanabara la Superbe", notável
obra da Embaixatriz Louise Hermite, ocorre outro relato, interessante depoimento
sobre as propriedades e estilo de vida dos Souza Breves. O pai da autora,
Maurice Ternaux-Compans, diplomata francês servindo na legação do Rio de
Janeiro em 1876, resolveu conhecer algumas das grandes fazendas cafeeiras
fluminenses, e assim realizou um excursão da qual faz pitoresco relato em
cartas dirigidas a sua irmã, Madame de Fournier-Sarvolèze. Esta cartas, mais
tarde, foram divulgadas e transformadas em livro pela filha do embaixador.
Maurice e seus companheiros de viagem visitaram
a Fazenda do Pinheiro de propriedade do Comendador José de Souza Breves e,
posteriormente foram a Fazenda da Grama do Comendador Joaquim de Souza Breves.

Fazenda da Grama - Rio Claro,
RJ.
Da fazenda do Comendador Rocha Leão, foram
Ternaux e seus companheiros de jornada à Fazenda do Pinheiro. A este propósito
informa o diplomata:
"A família dos Breves é dona em conjunto
do "pequeno número"de mais de doze mil escravos apenas! O dono do
Pinheiro só por si possui 4 mil. Apesar de bem idoso está sempre viajando. Em
sua ausência fomos recebidos por seu administrador. Em sua casa goza-se da
maior liberdade; chega-se e parte-se quando se quer, sem ser preciso avisar a
quem quer que seja. Também lhe chamam a fazenda de "hospedaria". Bem
maior do que a precedente que visitáramos, fica situada num declive pequeno,
que domina o Paraíba.
Dela goza-se de vista relativamente extensa, o
que é raro na Província do Rio de Janeiro. Lá encontramos o Conde d'Ursel,
diplomata belga, Cantagalli, da legação da Itália e o Sr. Gauph da legação
da Inglaterra. Ali estavam instalados a caçar desde alguns dias. À noite
ouvimos uma orquestra de quatorze negros entre os quais havia alguns que me
pareceram muito bons musicistas."
Pelo relato de Armando de Morais Breves, em sua
obra "O reino da Marambaia", excelente crônica do cotidiano dos
Breves, encontramos também a referência sobre os escravos músicos do
Pinheiro. Diz o autor: "... os negros da Fazenda do Pinheiro tinha escola e
aprendiam ofícios, gabando-se de sua banda de música onde tocavam o maestro Bráz,
o Bruno, o Benevenuto, o Izaías, o Benedito Praxedes. Todos queriam morrer no
Pinheiro, onde o velho Comendador deu-lhes a liberdade, e em seu testamento não
se esqueceu de um só. Em verdade José Breves não se esqueceu nem de seus prêtos,
por quem nutria um carinho muito especial, nem da pobreza. Antes de morrer,
gostava de visitar as crianças que nasciam nas senzalas de sua fazenda, filhos
de seus numerosos escravos. Como não tinha filhos, tinha por elas grande
carinho, tratando-as como a um pai."
Mas voltando à carta de Ternaux-Compans, que pôde
avaliar "in loco", toda a benevolência de José Breves. Deixando o
Pinheiro, o diplomata francês segue viagem em direção à Grama, em São João
do Príncipe, Passa-Três, fazenda do irmão de José Breves - o "creso
marcense", Comendador Joaquim José de Souza Breves. Segue então o seu
relato:
"No dia seguinte partimos para a Grama. Lá
nos caberia o ensejo de encontrar os proprietários e deles receber o mais amável
acolhimento. Depois de três horas em lombo de besta, chegamos à sede da
fazenda. E isto sem termos saído das terras dos nossos hospedeiros. O chefe da
família, Coronel Joaquim José de Souza Breves não sabe uma só palavra de
francês. Como meu português ainda não seja suficientemente compreensível,
chamou suas filhas e netas que vieram acompanhadas da Sra. Breves, personalidade
superior que a natureza fez crescer grande fidalga. Considerável séquito
trazia a fazendeira: "professora alemã" e, uma série de primas
pobres, legítimas e naturais, e outras pessoas seguidas ainda de um batalhão
de negrinhos e negrinhas.
Como as moças da família falassem
corretamente o francês, puzemo-nos imediatamente a tagarelar como velhos
conhecidos. Era o Comendador Joaquim Breves tio de pessoas conhecidas da irmã
do diplomata, como Luiz de Lima e Silva, filho do Conde de Tocantins, diplomata
brasileiro que se casara com uma senhora russa, Vera de Haritoff, irmã de Mme.
Magnan e de Mme. de Rousselière. Era também tio da Sra. Maurício de Haritoff
(irma de Dona Vera), de seu nome de solteira Anna Clara de Morais Costa Breves,
cuja casa foi durante longos anos o mais afamado centro de reuniões do
"grand monde"carioca.
Relata o viajante francês curiosa história:
uma das filhas do potentato do café, Dona Rita, casara-se com um fidalgo
italiano, o Conde Fé d'Ostiani que viera falecer na Europa, deixando uma única
filha - Dona Paulina. Fôra o Conde durante algum tempo Ministro da Itália no
Japão, e ao perder a esposa quis obrigar a moça a acompanhá-lo em sua
carreira pelas legações. O fim a que visava, afirma o diplomata francês, era
pouco louvável: obter dinheiro dos avós da menina. Mas Fé d'Ostiani, não
contava com a enérgica decisão de sua sogra, Dona Maria Izabel Morais de Souza
Breves, esposa do "rei do café", a quem Ternaux-Compans chama de
"la douairière" inadequadamente, pois ela era casada e não viúva.
Mulher de rara fibra, fez com seus escravos de confiança raptassem a menina,
levando-a do Rio de Janeiro à Fazenda da Grama. Entretanto, queixou-se o
desapontado pai ao governo Imperial, que intimou os avós de Dona Paulina a
entregá-la ao Conde. Determinou-se diligência policial ante a recusa do
Comendador Breves a entregar a neta. Mas relata Ternaux, que quando os soldados
de Sua Majestade Imperial se apresentaram para executar as ordens recebidas,
Joaquim Breves e seu batalhão de escravos colocaram os homens do Imperador para
correr, recuando prudentemente.
Estes e alguns outros casos demonstra quão
grande era o poder destes fazendeiros, que como os "daimios",
consideravam-se libertos de qualquer constrangimento em relação ao governo e
às leis estabelecidas. E assim ficara Dona Paulina em poder dos avós. Mais
tarde desposaria um fidalgo francês, o Conde de Montholon, neto do fidelíssimo
amigo de Napoleão I, um dos mais dedicados servidores do "Homem dos Séculos",
a quem acompanhou sempre na desdita de Santa Helena.
Muito apreciou Ternaux-Compans o convívio com
"cocota Breves", Dona Maria Izabel de Morais Costa, encantadora menina
de dezesseis anos e muito boa musicista. Infelizmente apreciava demasiado a música
de exportação, considerando Offenbach como um clássico. Para distração
nossa os fazendeiros fizeram com que os prêtos dançassem durante à noite
"lundus e cateretês". A seus gritos mais selvagens que harmoniosos,
acompanhavam o tambor e a guitarra, mas as melodias, pelo menos as que ouvi,
pareceram-me canções ciganas e cantos árabes, de tão poéticas em sua
monotonia.
Na Grama teve Ternaux a impressão de que os
escravos eram mais livres do que nas outras fazendas que percorrera. Moravam num
arraial de casas de barros, que se espraiava por baixo de uma espécie de vila,
à frente da italiana residência de seus senhores. Moravam aproximadamente
2.000 pessoas, entre escravos, empregados e a família, nas imediações da casa
grande da fazenda. Deste conjunto, fez o diplomata francês um esboço à óleo.
As portas dos aposentos da casa grande estavam sempre abertas. Assim viam-se
rastejando por baixo de todos os móveis, negrinhos que lá se metiam como se
fossem galinhas. Eram tolerados, porque os senhores deles se valiam para
evitarem o mais possível mover-se.
Apreciou o embaixador da França verificar o
prestígio do Comendador Joaquim Breves perante os seus, e o carinho e a deferência
com que o tratavam. Quando chegava para almoçar, filhos e netos corriam
apressurados e ao mesmo tempo, para beijar-lhe a mão. Era um homem de setenta
anos, de porte muito alto, de rosto enérgico, a que animava um olhar misto de
dureza e benevolência.
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